Quarta temporada conquista com novos personagens, emoção e lições de vida, mas algumas decisões de roteiro levantam dúvidas sobre a necessidade de continuar uma história que já havia encontrado seu final.
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Existem séries que conquistam o público por suas histórias, outras por seus personagens e algumas pela capacidade de transformar momentos aparentemente simples em verdadeiras lições de vida. Ted Lasso, desde sua estreia, conseguiu reunir todas essas qualidades em uma única produção.
E, convenhamos, Ted Lasso é Ted Lasso.
Em diversos momentos desta quarta temporada, você vai se pegar olhando como um bobo para a televisão, com os olhos marejados e, mentalmente, anotando no caderninho mais uma das inúmeras lições de vida que nosso querido técnico barbudo tem a oferecer.
Afinal, mesmo depois de tudo o que acompanhamos nas três primeiras temporadas, a série ainda encontra maneiras de nos lembrar da importância da empatia, do perdão, da amizade e, principalmente, de acreditar nas pessoas.
Entretanto, isso não significa que seu retorno seja perfeito. Embora a nova temporada preserve a essência da produção, algumas decisões narrativas deixam a sensação de que determinadas histórias precisaram ser adaptadas para justificar uma continuação que, sinceramente, não era necessária.
Ainda assim, será que isso realmente impede Ted Lasso de continuar sendo uma das séries mais acolhedoras da televisão?
Um novo Richmond, mas o mesmo coração
Um dos maiores desafios da quarta temporada é apresentar um novo grupo de personagens e fazer com que o público desenvolva por eles o mesmo carinho que construiu ao longo de três anos com os jogadores do AFC Richmond.
E não é uma tarefa fácil.
Afinal, estamos falando de uma série que nos fez acompanhar o amadurecimento de Jamie Tartt, as dificuldades de Sam Obisanya e as inúmeras transformações de Roy Kent. São personagens que tiveram tempo para crescer, errar, aprender e conquistar seu espaço.
Por isso, inicialmente, a chegada das novas jogadoras causa certo estranhamento. Suas personalidades ainda não são familiares e, inevitavelmente, sentimos falta de algumas das figuras que ajudaram a transformar a série em um fenômeno.
Contudo, essa resistência dura pouco.
A partir do segundo ou terceiro episódio, você percebe que já está completamente envolvido com as novas integrantes do Richmond.
Aos poucos, suas histórias ganham profundidade, as relações começam a funcionar e aquela sensação de estar acompanhando uma grande família retorna naturalmente.
É verdade que o brilho ainda não é exatamente o mesmo. Afinal, é difícil reinventar em poucos episódios o carisma e as histórias construídas durante três temporadas inteiras.
Por outro lado, o novo elenco demonstra que não precisa substituir os antigos personagens para conquistar o público. Basta encontrar sua própria identidade.
E, quando percebemos, aquelas jogadoras que começaram a temporada como completas desconhecidas já conquistaram mais um lugarzinho em nossos corações.
Alice Chilton é uma das grandes surpresas da temporada
Entre todas as novidades apresentadas, Alice Chilton merece um destaque especial.
A personagem representa justamente aquilo que a quarta temporada faz de melhor: introduzir alguém completamente novo, colocá-la em uma posição importante dentro da narrativa e permitir que conquiste seu espaço sem diminuir a relevância de personagens já estabelecidos.
Alice não chega para substituir o legado de Ted ou competir com tudo aquilo que o público aprendeu a amar. Pelo contrário, sua presença ajuda a ampliar as possibilidades da história.
Sua trajetória funciona especialmente bem porque existe espaço para crescimento, vulnerabilidade e aprendizado. Assim como aconteceu com diversos personagens nas temporadas anteriores, não é necessário que Alice tenha todas as respostas para que o público se interesse por ela.
Na verdade, é justamente essa possibilidade de transformação que a torna tão interessante.
Além disso, sua participação contribui para que a nova fase do Richmond desenvolva uma identidade própria, sem depender exclusivamente da nostalgia.
Ao final da temporada, Alice deixa de ser apenas uma das novidades do elenco e passa a representar uma das maiores expectativas para o futuro da produção.
É o tipo de personagem que começa como uma aposta e termina fazendo você contar os dias para reencontrá-la em uma possível quinta temporada.
Roy Kent continua sendo uma das maiores forças de Ted Lasso
Se as novas personagens representam o futuro da série, Roy Kent continua sendo um dos principais elos com seu passado.
Interpretado por Brett Goldstein, Roy sempre foi muito mais do que o ex-jogador mal-humorado que distribui palavrões e olhares intimidadores pelos corredores do Richmond. Por trás daquela aparência constantemente irritada, encontramos um dos personagens mais humanos e emocionalmente complexos da produção.
E é justamente por isso que sua presença continua tão importante.
Enquanto Ted representa uma liderança baseada no otimismo e na confiança, Roy oferece uma perspectiva mais dura, direta e, muitas vezes, desconfortável. Entretanto, ambos compartilham algo fundamental: a capacidade de enxergar o potencial das pessoas, mesmo quando elas próprias não conseguem reconhecê-lo.
Essa diferença entre suas maneiras de compreender o futebol e a vida sempre foi um dos elementos mais interessantes da série.
Nesta quarta temporada, Roy também funciona como uma ponte entre o Richmond que conhecemos e aquele que estamos aprendendo a amar. Sua personalidade continua rendendo excelentes momentos de humor, mas é sua evolução emocional que realmente sustenta o personagem.
Nesse sentido, um dos pontos mais satisfatórios é, finalmente, acompanhar a resolução de sua história com Keeley. Depois de tantas idas e vindas, a relação encontra um novo caminho, demonstrando o quanto Roy amadureceu desde que o conhecemos. Além disso, uma grande novidade reservada para o final da temporada promete transformar ainda mais sua vida.
Afinal, depois de tudo o que acompanhamos em sua trajetória, seria decepcionante vê-lo retornar apenas como alívio cômico ou uma lembrança das temporadas anteriores.
Felizmente, Roy permanece relevante justamente porque, por trás de sua brutal sinceridade, existe alguém que continua aprendendo a lidar com os próprios sentimentos, inseguranças e responsabilidades.
E, em uma temporada que precisa conquistar novamente a confiança do público, contar com alguém tão familiar, mas que ainda tem tanto a oferecer, faz toda a diferença.
O retorno de Ted a Londres é conveniente demais?
Entretanto, nem todas as decisões da quarta temporada funcionam tão bem quanto seus momentos emocionantes.
Uma das maiores inconsistências está justamente na maneira como a série justifica o retorno de Ted a Londres.
Durante a terceira temporada, acompanhamos o sofrimento do protagonista por estar distante de seu filho, Henry. Esse conflito foi um dos pilares emocionais da história e culminou na decisão de abandonar o Richmond para retornar aos Estados Unidos.
Sua despedida não representava apenas o encerramento de um ciclo profissional, mas a escolha de um pai que precisava estar presente na vida do filho.
Por isso, é difícil não estranhar a facilidade com que a quarta temporada resolve o problema.
Afinal, se Henry e Michelle poderiam simplesmente se mudar para Londres, por que essa possibilidade não foi considerada antes?
É evidente que circunstâncias familiares mudam. Entretanto, a maneira como a série apresenta essa solução parece conveniente demais, principalmente quando lembramos de todo o peso emocional atribuído à decisão de Ted no terceiro ano.
O problema não é o retorno do personagem. É a sensação de que um conflito construído durante anos foi resolvido rapidamente porque a série precisava continuar.
A decisão acaba enfraquecendo um pouco a força daquele que, até então, parecia um encerramento praticamente perfeito.
Uma temporada de construção para o futuro?
Talvez a melhor maneira de compreender a quarta temporada de Ted Lasso seja encará-la como um novo começo, e não como uma tentativa de superar imediatamente aquilo que veio antes.
Afinal, as três primeiras temporadas tiveram tempo para desenvolver seus personagens, estabelecer relações e construir momentos que permanecerão na memória dos fãs.
Esperar que um novo elenco reproduza esse mesmo impacto em apenas dez episódios seria injusto.
Por outro lado, a série também precisa encontrar coragem para seguir em frente.
E é justamente nesse aspecto que Alice Chilton, interpretada por Tanya Reynolds, se destaca. Sua personalidade mais reservada, sua postura firme e a dificuldade inicial de lidar com o otimismo quase inesgotável de Ted criam uma dinâmica interessante.
Alice possui suas próprias convicções e inseguranças. Além disso, sua evolução acontece sem que a série precise transformar Ted em um personagem menos competente para valorizá-la.
O encerramento da temporada reforça essa ideia quando Ted decide assumir uma função de assistente e abre espaço para Alice comandar a equipe feminina do Richmond. Trata-se de uma escolha que transforma o crescimento da personagem em uma consequência natural da história.
SPOILERS a seguir: Roy Kent também passa por mudanças importantes nesta temporada. Sua decisão de assumir o comando do Chelsea mostra que sua história ainda tem muito a oferecer, mesmo longe do Richmond. Depois de tantos anos acompanhando seu amadurecimento, é interessante vê-lo abraçar um novo desafio profissional. Entretanto, talvez sua maior transformação ainda esteja por vir: a chegada da paternidade promete apresentar uma nova faceta do personagem, colocando à prova aquele jeito durão que tanto aprendemos a amar e abrindo espaço para mais um capítulo de sua evolução pessoal.
Essas decisões ajudam a explicar o propósito da temporada: preparar novos caminhos para personagens antigos e, principalmente, permitir que outros assumam o protagonismo.
Veredito: Ted Lasso continua sendo Ted Lasso, e talvez isso seja suficiente
No fim das contas, a quarta temporada de Ted Lasso não precisava existir.
O terceiro ano havia entregado um encerramento emocionante, coerente e satisfatório para personagens que aprendemos a amar. Portanto, retornar a esse universo inevitavelmente significava correr o risco de comprometer parte daquele legado.
E, em alguns momentos, é exatamente isso que acontece.
O retorno de Ted a Londres parece conveniente demais, algumas histórias ainda precisam de desenvolvimento e o novo elenco, por mais carismático que seja, naturalmente não possui a mesma força emocional de seus antecessores.
Entretanto, seria injusto ignorar tudo aquilo que a série continua fazendo tão bem.
Porque Ted Lasso ainda consegue arrancar gargalhadas quando menos esperamos, emocionar com conversas aparentemente simples e nos lembrar de valores que, na correria do cotidiano, frequentemente deixamos de lado.
E, acima de tudo, continua sendo uma série sobre pessoas tentando se tornar versões melhores de si mesmas.
Talvez esta não seja a melhor temporada de Ted Lasso. Mas pode muito bem ser o primeiro capítulo de uma nova grande história.
As novas jogadoras conquistaram seu espaço, Alice Chilton mostrou que possui potencial para carregar parte do futuro da produção e Roy Kent continua provando que até os personagens mais durões têm muito a aprender.
Assim, mesmo sem alcançar o brilho das temporadas anteriores, o quarto ano termina deixando algo que parecia improvável quando seu retorno foi anunciado: vontade de acompanhar o que vem depois.
Se uma quinta temporada realmente acontecer, esperamos que a produção aproveite os alicerces construídos aqui para desenvolver ainda mais seus novos personagens, sem depender tanto da nostalgia.
Porque, no fim, não precisamos que Ted Lasso seja exatamente como antes.
Precisamos apenas que continue sendo Ted Lasso.
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Luan Pierucci
Faço parte do SHB desde 2018, quando comecei como redator. Hoje, sou sócio do portal e host do AudioHero, entrevistando…

